Mais um acidente com amônia, até quando nossos empresários irão continuar indiferentes ao problema?

amonia

Até quem acompanha as ocorrências de acidentes no setor frigorífico ou de alimentos se espanta com os números…, Merecem destaque 2 grandes acidentes ocorridos recentemente: um na Minerva Foods de Barretos, em 31/ago/16, com 1 óbito e cerca de 30 feridos e agora outro na JBS de Senador Canedo, em 20/set/16, com mais de 60 feridos.

Por que amônia?

Se não fosse a sua toxidade a amônia ou amoníaco (solução aquosa de amônia) seria o líquido refrigerante ideal pois reúne todas as características desejáveis para uma eficiente troca de calor, além de seu baixo custo.

Algumas vantagens da amônia

– É quimicamente inerte para os elementos dos circuitos frigoríficos, com exceção do cobre.

– O amoníaco não se mistura com o óleo lubrificante.

– É facilmente detectável em caso de fuga por apresentar um odor pungente muito característico, desta forma, é muito difícil ter uma falha de circuito.

– O amoníaco é fabricada para muitos mais usos além da refrigeração, o que permite a manutenção do seu preço baixo. O preço do amoníaco é muito inferior ao da maioria dos refrigerantes, além de requerer quantidades menores para obtenção do mesmo resultado.

Riscos da amônia

A amônia é utilizada em grandes trocadores de calor que operam em sistemas de refrigeração de grande porte. O processo de troca de calor envolve a compressão do gás amônia, que se apresenta liquefeito em reservatórios sob pressão. O volume que ocuparia se estivesse sob a pressão ambiente, em caso de vazamento por exemplo, seria 850 vezes maior.

A amônia é um agente tóxico, com propriedade alcalina corrosiva e pode também ser explosiva quando em concentrações de 16 a 25% no ar.

A concentração do limite ambiental para a amônia é de 20ppm ou 14mg/m3 (conforme anexo 11 da NR-15), que é uma concentração válida para jornadas de trabalho de até 48 horas por semana, caracterizando grau de insalubridade médio.

Por que os acidentes ocorrem?

Os acidentes estão sempre relacionados às falhas. Quando um acidente ocorre é certo que houve uma falha ou uma combinação de falhas.

Normalmente a ocorrência de um acidente se dá em virtude de uma sequência de falhas, quer sejam no processo em si ou nas salvaguardas previstas para mitigar os riscos.

As falhas podem ter suas origens na concepção do projeto, na execução dos processos ou mesmo podem ser de ordem administrativa, por exemplo.

Salvo raríssimas exceções, qualquer que seja a origem da falha ela é de total responsabilidade do empresário, pois a ele cabe zelar pela segurança de seus funcionários, adotando as medidas administrativas, de projeto e operacionais necessárias.

Antes do acidente

É certo que a prevenção é o melhor caminho, contudo é sabido que a maioria dos empresários brasileiros atribuem baixa prioridade ao tema, por economia ou por mero desconhecimento.

Durante as operações

Neste cenário, onde as soluções de segurança são apresentadas após a concepção dos projetos, se faz relevante reavaliar todos os pormenores dos processos visando identificar e mitigar qualquer possibilidade de falha, implementando as salvaguardas necessárias.

São diversas as metodologias empregadas na análise de falhas e que combinadas ou contextualizadas, conforme o caso, fornecem excelentes subsídios para mitigar os riscos.

Para situações que envolvem tempos de reações exíguos, grande volume de pessoas, entre outros aspectos, faz-se necessário lançar mão dos recursos da modelagem dinâmica, avaliando-se os possíveis cenários, com a simulação matemática para detecção de falhas em projetos ou processos complexos.

Depois do acidente

No mundo ideal o “depois” não deveria existir… Se existe é porque o trabalho de prevenção não foi bem feito. Neste caso a avaliação do “acidente” ocorrido é peça fundamental no processo de melhoria contínua.

Ao que parece nossos empresários não estão fazendo a lição de casa como deveriam e por esta razão os acidentes continuam acontecendo.

É inconcebível que empresas do porte de uma JBS (faturamento de 160 bilhões em 2015) sejam incapazes de evitar a recorrência de acidentes dessa magnitude.

Se levarmos em conta o prejuízo financeiro e de imagem que tais acidentes representam para as empresas é de causar estranheza a falta de mobilização percebida por parte dos empresários.

Tudo que se vê quando um acidente ocorre são ações que visam abafar o caso, sendo que muito pouco se faz com relação a efetiva análise do acidente, que certamente levaria à adoção de novas salvaguardas, para mitigar os riscos.

Gestão de riscos

Pelo número de acidentes que estamos vendo nos noticiários, em particular os relacionados à vazamento de amônia, parece que os empresários do setor não estão realizando um bom trabalho no âmbito da gestão de riscos.

Pela gravidade dos acidentes, tanto para empresa quanto para os trabalhadores e suas famílias, é muito difícil entender a razão pela qual nada efetivamente tem sido feito no sentido de interromper, de uma vez por todas, a ocorrência desse tipo de evento, sempre vitimando dezenas de trabalhadores.

Plano de emergência

Não bastassem as falhas na prevenção e na adoção de salvaguardas, muitas vezes percebemos falhas nos planos de emergência, com relatos de situações incompatíveis com os planos, como por exemplo rotas de fugas obstruídas e/ou a contaminação destas, sem falar na infraestrutura de atendimento médico, muitas vezes insuficientes para o atendimento das demandas oriundas das situações de emergência.

A responsabilidade dos empresários

Pelo o que se tem visto nos noticiários os empresários estão sendo responsabilizados e espera-se que isso incentive a melhoria do ambiente de trabalho nestas empresas.

No caso Minerva Foods, por exemplo, de acordo com o noticiário, a CETESB irá aplicar “sanções administrativas cabíveis” e a Polícia Civil instaurou “inquérito por homicídio culposo”. O que isso na prática irá representar ainda não sabemos…

Independentemente das sanções efetivamente impostas resta saber se as empresas assimilaram as lições aprendidas e se irão investir em segurança como devem.

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