Santa Maria – Lições Aprendidas… Será?

Sempre que uma grande tragédia ocorre todas as atenções se voltam para o fato… Mas será que realmente aprendemos alguma coisa ou seria apenas mero sensacionalismo?

Quase que instantaneamente, diante de grandes ocorrências, somos bombardeados com informações e especulações de diversas naturezas, uma busca por culpados e fragilidades na legislação ou na sua aplicação, deixadas aqui e ali… Mas será que estamos realmente assimilando as ‘lições aprendidas’?

A origem das tragédias

Toda tragédia, até mesmo aquelas produzidas pelas forças da natureza, é resultado de comportamentos associados a ‘imprudência’, ‘imperícia’ e ‘negligência’.

Imprudência

Sabe realizar a coisa, tem competência, mas relaxou na hora, foi irresponsável em algo que podia fazer (permitido por lei), fez errado, faltou precaução, foi precipitado.

Imperícia

É leigo no assunto mas atreveu-se a fazer, agiu sem aptidão.

Negligência

Não foi diligente, não foi zeloso, não era permitido por lei.

Talvez pudéssemos também nos referir as esses comportamentos utilizando termos ‘técnicos’ mais populares, de fácil entendimento: ‘burrice’ e ‘falta de bom senso’. O caso Santa Maria não é exceção, talvez uns dos maiores exemplos disso, infelizmente!

A essência do problema

Lembro que uma das primeiras preocupações apontadas dizia respeito ao ‘alvará’ da malfadada Boate Kiss. Esse fato remete a outra questão, da mais alta importância, a exagerada ênfase dada ao ‘papel’ e a absoluta negligência àquilo que deveria estar feito… Percebam que o fato em si não tem relação direta com o papel ‘alvará’ – com ou sem alvará o fato teria ocorrido, cedo ou tarde. Tratou se de uma sequência de ‘falhas’ de diversas naturezas, o ‘alvará’ se estivesse em dia (dizem que não havia, não sei, é irrelevante a esta altura!) poderia ‘camuflar’ ainda mais a montanha de problemas reunidos ali.

Não trata-se de ignorar a necessidade de uma ‘inspeção criteriosa’ e a expedição de um ‘alvará’, mas o que desejo destacar é a importância dos cuidados que um evento dessa monta demanda, independentemente de qualquer ‘burocracia papelística’.

No segmento corporativo, no exercício da consultoria, observo que muitos empresários brasileiros buscam soluções por modismo ou simplesmente devido a exigências legais ou de mercado, ignorando o conteúdo e o real benefício daquilo proposto. Exemplo disso são as ‘certificações ISO 9001’ – muitos empresários não percebem o real valor do incremento da qualidade e tiram pouco proveito disso, infelizmente. Isso acontece em vários patamares e diferentes áreas, profissionais estão negligenciando o conteúdo, só prestam atenção aos ‘rótulos’ e não buscam ir além – no conteúdo, na essência do problema, no real significado da proposta… fazem por fazer, sem o devido zelo.

Alvará x Data de Validade

Um exemplo bem simples para melhor entendimento daquilo que desejo explicar: Imaginem que temos uma lata de ervilhas com a data de validade de ontem, portanto ‘vencida’. Ao abri-la, fazendo uso do ‘bom senso’ e dos ‘sentidos’ percebemos que está perfeitamente em condições de consumo – e de fato está! Mas o rótulo diz que está VENCIDA!

Da mesma forma, suponha que a data de validade seja amanhã, portanto ‘não vencida’. Ao abri-la percebemos que está ‘podre’!, da mesma forma, apenas fazendo uso do ‘bom senso’ e dos ‘sentidos’ temos certeza disso… você irá consumir?

O que desejo exemplificar é que o ‘alvará’, no caso de Santa Maria por exemplo, é o que menos importa, é uma mera referência, o empresário deve estar atento aos ‘problemas’ que se deseja evitar e não ao ‘papel’ exigido pela legislação.

Prevenção

Iniciando por esta linha de raciocínio nos interessa portanto avaliar como tal evento poderia ter sido evitado, efetivamente. Está claro que não seria em função de um ‘alvará’ somente, mas talvez por um melhor entendimento por parte dos empresários quanto a relevância de ‘estudos’ e ‘análise criteriosa’ de possíveis cenários / riscos.

Com a colaboração de nosso especialista em ‘Modelagem Dinâmica de Sistemas (Lineares e Não-Lineares)‘, Guilherme Antônio Dias Pereira (com extensa experiência em mega-projetos como Metrô do RJ, Petrobras, BR Distribuidora, Estado Maior das Forças Armadas, entre outros) realizamos um pequena avaliação daquele cenário e de um conjunto de outros que pudessem corroborar aquilo que modelo ModSIS (Modelagem de Sistemas, de sua autoria) promete, ou seja, evitar ou minimizar os efeitos de grandes acidentes.

No triste caso da Boate KISS, as vítimas, até agora – e tudo indica que, infelizmente, serão mais, são 237 jovens, em sua maioria menores de 30 anos! Foram se divertir, comemorar uma vitória pessoal, o ingresso em uma Universidade Pública! …morreram! de forma similar às vítimas do Holocausto, numa Câmara de Gás.

Uma sequência de equívocos

Como mencionado no inicio trata-se de uma sequência de ‘equívocos’:

  • Dos donos da Boate KISS,

  • Do Governo Municipal (a quem compete conceder os Alvarás de funcionamento de estabelecimentos abertos ao público),

  • Do Governo Estadual (a quem, através do Corpo de Bombeiros, compete estabelecer as normas mínimas de segurança de qualquer estabelecimento ao qual se pretenda conceder um Alvará de funcionamento).

Enfim, muitos falharam, por descaso, irresponsabilidade, omissão, incompetência! (ou se preferir: IMPRUDÊNCIA, IMPERÍCIA e NEGLIGÊNCIA).

Regra de três

Ironicamente, evitar a tragédia de Santa Maria teria sido ridiculamente simples. As ‘Normas’ pelas quais é possível verificar-se as condições de funcionamento de um estabelecimento, com segurança, podem ser aferidas e verificadas por qualquer estudante de 2º Grau que saiba fazer uma ‘Regra de Três’.

O especialista Guilherme Pereira explica abaixo porque isso não aconteceu em outros cenários bem mais complexos que os da Boate Kiss:

A paralisação do Metrô do Rio de Janeiro, com três composições superlotadas de seis carros cada, em pleno horário de pico da manhã, não resultou numa tragédia ainda mais grave e, com isso, não rendeu manchetes nos jornais, simplesmente porque, quando planejado o Metrô do Rio, nos idos de 1975, a segurança do sistema, a segurança dos usuários foi uma preocupação levada a sério. Os planos de evacuação do sistema foram desenvolvidos, testados, revisados, simulados à exaustão!… As Normas da ABNT (que servem de norteio para as verificações de segurança que, teoricamente, permitem a concessão de Alvarás) foram, na época, revisadas e, não poucas vezes, substituídas por parâmetros de segurança ainda mais rigorosos”.

O especialista Guilherme Pereira foi um dos técnicos responsáveis pela checagem e aferição das Normas e o profissional responsável pela simulação matemática, à época, de cada estação, de cada Sistema de Manobras, ainda em fase de Dimensionamento e Planejamento. Portanto, aproveitando, apesar de tudo, ele é taxativo ao afirmar que a anunciada ‘Uma Hora’, para evacuação do Sistema Metrô do Rio de Janeiro, em sua última paralisação, É MUITO TEMPO!

Guilherme complementa e faz um alerta quanto ao cenário de risco presente no Metrô do RJ:

É uma situação delicada e complexa:

O único caminho para evacuar-se os Usuários das composições paralisadas é pelo meio da via ladeada por um trilho de alimentação por onde passam 700 volts.

É preciso desligar-se a rede entre a composição e a estação mais próxima, é preciso esvaziar a composição carro a carro (seis carros em média por composição que trafega na parte subterrânea do sistema), conduzindo os usuários ao longo de um túnel completamente sem iluminação e os usuários terão que andar por até 2 Km no interior deste túnel.

Além disso, o vão entre as portas dos carros e o solo é uma distância de quase 1 metro, um obstáculo intransponível para idoso, obesos e deficientes, se sozinhos!… O ar se torna pesado, faz um calor infernal (estamos no subsolo do Rio de Janeiro e, sem energia, não há ar condicionado…)!

É preciso alertar constantemente para que os usuários não entrem em pânico, este sim, o maior fator de ‘fatalidades’; é preciso que os funcionários da empresa, em articulação com a Defesa Civil e os Bombeiros, estejam preparados para saber exatamente o que fazer. Foi isso que permitiu que o caso da paralisação do Metrô do Rio não evoluísse em tragédia muito maior que a de Santa Maria.

Mesmo assim, com base no que estudou, planejou, simulou, o especialista Guilherme Pereira, insiste: É MUITO TEMPO!

Ele explica: Houvesse ocorrido um incêndio numa das composições envolvidas, além da pane de energia, poderíamos ter assistido a outra grande tragédia!

Pirotoxinas

Infelizmente, a maioria dos equipamentos e componentes de metrôs, trens e ônibus são altamente inflamáveis e, pior, sua combustão dá origem a pirotoxinas (de “pyros, “fogo”), CO, CO2, NO, NO2, NH3, HCN que são as grandes responsáveis pela maioria das mortes, como no triste caso de Santa Maria!… O mais grave é que muitas delas (como o CO e o HCN) são incolores e inodoras, um inimigo silencioso e fatal! Para se ter uma ideia, um único fato de tecido sintético produz pirotoxinas suficientes para tornar, em um minuto e meio, um ambiente de 30 m2 em uma armadilha mortal! A morte se dá por “asfixia celular”. Tanto o CO quanto o HCN substituem, com facilidade, o oxigênio (O2) nas células do sangue (hemácias) e, uma vez isso feito, não há como fazer com que o oxigênio seja trocado nos pulmões. Pode-se dar à vítima quanto oxigênio se quiser, suas células não conseguem mais respirar, ainda que seus pulmões aparentem funcionar. Somente com recursos sofisticados existentes em hospitais devidamente aparelhados e com transfusões de sangue torna-se possível uma alguma chance de sobrevivência.

Metrô do Rio de Janeiro

Guilherme Pereira relata também que fez todos estes estudos entre 1975 e 1978 e os refez para as estações da Zona Sul a partir de Arcoverde até General Osório, entre 1992 e 1994, quando então Chefe da Divisão de Estudos de Transportes do Metrô do Rio de Janeiro. Solicitou a implantação de uma série de medidas adicionais de segurança às estações da Zona Sul sob os morros, solicitações que, na época, receberam total aval da Defesa Civil. Algumas, foram implementadas…

Como implementar a prevenção

Mas, como são feitos estes cálculos de prevenção? São muito complexos? Exigem a contratação de especialistas como Guilherme Pereira?

Guilherme Pereira explica: Na verdade, os cálculos iniciais, que apontam a necessidade ou não de estudos mais aprofundados são, como mencionado anteriormente, extremamente simples. Regra de três que se aprende na escola! No caso do Metrô, em condições normais, as portas dos carros com 1,90 m de largura têm uma capacidade de vazão de 2 passageiros por metro, por segundo, por porta (dados da ABNT e revalidados em medições de campo ainda no período 1975-1978) ou seja, por cada porta passam, a cada segundo, entre 2 e 4 passageiros (3 em média) dependendo das dimensões e das dificuldades pessoais de cada passageiro. Como cada carro superlotado, comporta, em média, 440 passageiros (325 a 365, dependendo do tipo do carro, em condições planejadas de mínimo conforto, o que não vem sendo observado) e, levando-se em consideração que cada carro tem 3 portas de 1,90 m em cada um dos seus lados e que, na maioria das estações, apenas um lado de cada carro tem acesso à plataforma de desembarque, teremos 9 passageiros por segundo saindo de cada carro para a plataforma da via, ou seja, em média, precisaremos de 49 segundos para esvaziar uma composição de metrô. Levando-se em consideração um caso mais grave de incêndio, teremos mais 41 segundos para retirá-los da estação antes que as pirotoxinas de um eventual incêndio comecem a fazer efeito. Quarenta e um segundos! Um pouco mais, um pouco menos, dependendo da resistência de cada um…

Aplicando o mesmo cálculo ao ocorrido na Boate KISS de Santa Maria, fossem as 650 pessoas descritas como lotação máxima permitida, para deixarem a boate por uma única porta, desobstruída, de 2 metros de largura, considerando 3 pessoas por segundo, seriam necessários 217 segundos (ou cerca de 3,5 minutos) para evacuar a boate. Se levarmos em conta o número declarado de 1.500 pessoas no interior da boate, seriam necessários 500 segundos, ou seja, cerca de 8,5 minutos para uma evacuação segura por uma única porta de 2 metros ou 300 segundos, utilizando-se uma porta desimpedida de 3 metros (cerca de 5 minutos, TEMPO DEMAIS!) e, considerando que a única porta de saída estava, de início, fechada, e mais, que não havia sinalização clara para a evacuação nem profissionais habilitados (com máscaras contra gases) para orientar na fuga, poderia ter sido MUITO PIOR!

Para dar um mínimo de chance a 1.500 pessoas, a boate precisaria contar com 2 portas, estrategicamente colocadas e sinalizadas com 3 metros (4 metros para se ter uma margem de segurança…) de largura cada. É aritmética elementar, simples assim!

Depois de deixar o Metrô do Rio de Janeiro, Guilherme relata que passou a prestar serviços à Petrobras, uma das poucas empresas neste país que investe na segurança para projetos de grande porte. Os modelos que desenvolveu para Petrobras (e também outros, como Arsa – Aeroporto de Guarulhos e CVRD – Complexo Portuário de Tubarão, etc), seguem a mesma metodologia:

  • Análise do projeto,

  • Construção da Base de Dados,

  • Cálculos preliminares de capacidade estática de cada bloqueio baseados em taxas de ocupação (REGRA DE TRÊS)

e, quando estas taxas individuais de ocupação ultrapassam 75%,

  • Modelos de Simulação Estocástica.

É isso que o especialista Guilherme Pereira recomenda, o mínimo a ser exigido de cada estabelecimento, comercial ou não, que recebe público em suas dependências. Sem esquecer os extintores de incêndio adequados (testados regularmente), profissionais treinados e fiscalização permanente por parte dos órgãos competentes. Ou, tragédias se repetirão, talvez ainda com maior número de vítimas do que as que ocorreram em Santa Maria!”… Será que a lição foi aprendida?

 

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